Os bebés podem comer arroz? O que precisas de saber sobre o arsénio
Sempre que falo de arroz na introdução alimentar, surge a mesma pergunta: afinal, o bebé pode ou não comer arroz, por causa do arsénio?
A resposta curta é sim, pode. Mas com alguns cuidados. E percebo a dúvida: quando se lê que um alimento tão comum pode ter um contaminante associado a cancro, é natural que a preocupação apareça. Vamos por partes.
O que é o arsénio inorgânico e porque aparece no arroz?
O arsénio é um elemento que existe naturalmente no ambiente, no solo e na água, e é daí que chega aos alimentos. A forma que mais preocupa do ponto de vista da saúde é o arsénio inorgânico.
O arroz tende a absorver mais arsénio da água e do solo do que outras culturas. Por outras palavras, não é um problema de uma marca ou de uma embalagem: é uma característica da própria planta. A quantidade varia com a variedade, a região e o modo de produção, por isso não é possível saber quanto arsénio tem um pacote concreto sem uma análise.

Porque é que se fala tanto disto nos bebés?
Em 2024, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) atualizou a avaliação de risco do arsénio inorgânico. Os estudos mostram que a ingestão prolongada está associada a um maior risco de vários problemas de saúde, incluindo cancro da pele, da bexiga e do pulmão.
A EFSA não definiu uma quantidade segura. Usa como valor de referência 0,06 microgramas de arsénio inorgânico por kg de peso corporal, por dia. E os dados que recolheu em vários países europeus mostram que a exposição média das crianças pequenas já ultrapassa esse valor.
Porquê os bebés? Porque comem muito em proporção ao seu peso. A mesma papa que para um adulto seria uma quantidade pequena representa, num bebé com cerca de 9 kg, muito mais por cada quilo de peso.
Mas atenção: estamos a falar de exposição repetida ao longo do tempo. Não de uma refeição.
Então, o meu bebé pode comer arroz?
Pode. Não é preciso ser radical e retirar da alimentação do bebé tudo o que tenha arroz. O problema não está numa refeição de arroz. Está em comê-lo todos os dias, de várias formas e em várias refeições: o arroz do almoço, a papa do pequeno-almoço, as bolachas do lanche.
Costumo dizer que, com o arroz, a palavra-chave é variar. Quanto mais variares, menos vezes o arroz aparece no prato e menor é a exposição.

Quantas vezes por semana?
Não existe uma recomendação europeia com um número fechado. Uma boa referência vem da autoridade alimentar sueca, que recomenda que as crianças comam arroz e produtos de arroz no máximo 4 vezes por semana, contando também com papas, massa de arroz e snacks de arroz.
Nos outros dias, alterna com outros cereais e tubérculos:
• batata e batata-doce;
• cevada e centeio;
• trigo-sarraceno;
• massa;
• quinoa.
Adapta sempre a textura e a forma de oferecer à idade e à fase do teu bebé.

E a bebida de arroz?
Aqui a resposta é simples: não é aconselhada. Várias entidades, como a ESPGHAN (Sociedade Europeia de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica), a Food Standards Agency do Reino Unido e a Academia Americana de Pediatria (AAP), não a recomendam para bebés e crianças pequenas, sobretudo como substituto do leite.
Se quiseres perceber melhor porquê, escrevi sobre isso neste artigo: Bebida de arroz para bebés: porque não é uma boa opção.
E as papas e bolachas de arroz?
Podem aparecer de vez em quando, mas não devem ser a base diária, porque podem contribuir de forma significativa para a exposição ao arsénio.
A União Europeia definiu limites máximos de arsénio inorgânico mais exigentes para o arroz usado em alimentos para bebés e crianças pequenas. Ainda assim, o Instituto Federal Alemão de Avaliação de Riscos (BfR) alerta que, mesmo dentro desse limite, uma papa de arroz diária pode resultar numa exposição relativamente elevada, precisamente porque os bebés comem muito em proporção ao peso. Por isso, recomenda que a alimentação não se baseie apenas em produtos de arroz e que se alterne com outros cereais.
Na prática: se as papas do teu bebé são 100% de arroz, alterna com papas de aveia, cevada, milho ou multicereais. E guarda as bolachas de arroz para ocasiões pontuais.

Em resumo
O arroz pode fazer parte da alimentação do bebé. Só não precisa de estar sempre no prato. Varia os cereais ao longo da semana, deixa a bebida de arroz de fora e guarda as papas 100% de arroz e as bolachas de arroz para de vez em quando.
Não se trata de cortar alimentos. Trata-se de equilibrar o que oferecemos ao longo da semana, para proteger o bebé hoje e no futuro.
Para saber mais
• EFSA CONTAM Panel (2024). Update of the risk assessment of inorganic arsenic in food. EFSA Journal, 22, e8488. https://doi.org/10.2903/j.efsa.2024.8488
• EFSA, Arcella D, Cascio C, Gómez Ruiz JÁ (2021). Chronic dietary exposure to inorganic arsenic. EFSA Journal, 19, e06380. https://doi.org/10.2903/j.efsa.2021.6380
• Hojsak I, Braegger C, Bronsky J, et al.; ESPGHAN Committee on Nutrition (2015). Arsenic in rice: a cause for concern. Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition, 60, 142-145. https://doi.org/10.1097/MPG.0000000000000502
• BfR, Instituto Federal Alemão de Avaliação de Riscos (2015). Supplement EU maximum levels for inorganic arsenic in rice and rice products through consumption recommendations for the protection of infants, young children and children. Parecer n.º 017/2015. https://www.bfr.bund.de/cm/349/supplement-eu-maximum-levels-for-inorganic-arsen-in-rice-and-rice-products.pdf
• Livsmedelsverket, Autoridade Alimentar da Suécia. Arsenic in rice. https://www.livsmedelsverket.se/en/food-and-content/oonskade-amnen/metaller/arsenik-i-ris/
• American Academy of Pediatrics, HealthyChildren.org (2023). 5 Ways to Reduce Arsenic in Your Baby's Diet. https://www.healthychildren.org/English/ages-stages/baby/feeding-nutrition/Pages/Reduce-Arsenic.aspx
• Food Standards Agency (2018). Arsenic in rice. https://www.gov.uk/government/publications/arsenic-in-rice/arsenic-in-rice
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